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Renata e Fábio Prado – A casa e a cidade


A exposição revela o alcance da ação pública do casal Renata Crespi Prado e Fábio da Silva Prado, moradores originais da residência hoje ocupada pelo Museu da Casa Brasileira.

O primeiro módulo aborda justamente a casa, desde o projeto, feito num momento em que a então rua Iguatemi era a antiga estrada da boiada, com moradores humildes, em suas maioria chacareiros portugueses, até a ocupação feita pelo casal, bem ao gosto neoclássico da elite paulista.

O segundo módulo aborda a gestão de Fábio Prado à frente da Prefeitura de São Paulo, entre 1934 a 1938, destacando a criação do Departamento de Cultura, entregue ao intelectual Mário de Andrade, a fundação dos parques infantis e a abertura de grandes avenidas.

Com curadoria de Carlos Lemos e Maria Ruth Amaral de Sampaio, ambos professores da Universidade de São Paulo, a mostra conta com mais de 50 fotografias em preto e branco, de diversas dimensões, além de documentos originais de 1934 a 1938, quando Fábio da Silva Prado (1887-1963) foi prefeito da cidade. Também merece destaque a escultura do busto de Renata Crespi da Silva Prado (1897-1984), em mármore branco, de Victor Brecheret, e a planta do solar com a representação de sua utilização nos tempos em que era residência de Renata Crespi Prado e Fábio da Silva Prado.

O casal ficou conhecido por seu interesse pela cultura e pelo social. Casados em 1914, ele filho de fazendeiros do café e ela de um industrial italiano, não tiveram filhos. Na década de 1940, decidiram construir sua residência na antiga rua Iguatemi e contrataram o arquiteto carioca Wladimir Alves de Souza para projetar a casa, provavelmente a maior da florescente região.

“Embora Fábio Prado pertencesse à ilustre família com amplo trânsito no meio artístico, e também dada a patrocinar movimentos a favor da modernidade, o casal optou pelas soluções passadistas, mesmo porque o luxo a que estava acostumada ainda achava-se atrelado inapelavelmente à vida de dantes, ao ecletismo, ao academismo, às porcelanas e aos cristais”, escreve o professor Carlos Lemos em um dos textos da mostra sobre as escolhas do casal para a construção do Solar.

Fábio e Renata mudaram-se para a nova residência em 1945. Ali viveram 18 anos, até a morte de Fábio Prado, em 1963. A mostra traz a planta da casa, doada por dona Renata para a Fundação Padre Anchieta e administrada em comodato pela Secretaria de Estado da Cultura. A planta e o programa original do uso do Solar dizem muito sobre o cotidiano de um casal da elite paulistana nas décadas de 40 e 50.

Adélia Borges, diretora do Museu da Casa Brasileira, conta que a idéia da exposição surgiu devido à enorme curiosidade demonstrada pelos visitantes do Museu da Casa Brasileira em relação aos antigos moradores do edifício. “Percebemos ainda que o conhecimento do público – e de nós mesmos – a respeito do papel que o casal teve na cultura e no desenvolvimento de São Paulo ainda era muito restrito, em face do alcance das suas realizações”, diz ela, lembrando que o casal pertencente à elite financeira do Estado tinha um senso público tão raro quanto necessário em nosso país.

Primeiro prefeito após um longo período de instabilidade por causa das revoluções de 30 e 32, Fábio Prado contou com uma situação favorável para realizações urbanísticas, culturais e sociais. Engenheiro pela Universidade de Liège (Bélgica), ele não hesitou em adotar um plano de urbanização feito por seu antecessor, Prestes Maia, que mais tarde voltaria à prefeitura. Na mostra, podem-se ver as imagens das avenidas Rebouças e 9 de Julho em construção, inclusive os detalhes da abertura do túnel. As fotos também mostram o início das obras do Estádio do Pacaembu, e a reconstrução do Viaduto do Chá, onde aparecem lado a lado, o antigo e o novo.

A mostra revela ainda que Fábio Prado soube trazer benefícios para o interesse coletivo ao se aproximar de intelectuais que promoveram a Semana de Arte Moderna de 1922. Ele criou, em 1935, o primeiro Departamento de Cultura da cidade e convidou Mário de Andrade para ser o diretor. Além da conhecida Missão de Pesquisas Folclóricas que documentou danças e músicas das regiões Norte e Nordeste, em sua gestão Mário de Andrade construiu os primeiros parques infantis de São Paulo. Fotos registram sua presença na inauguração de um parque. Outra iniciativa importante foi reunir, em 1934, os livros da Biblioteca Municipal e os da Biblioteca Estadual, levando à necessidade de um prédio próprio, construído de imediato. É ali que funciona atualmente a Biblioteca Mário de Andrade.

“Na gestão do prefeito Fábio Prado a socialização da cultura constituiu preocupação constante, conseqüência direta da entrada na administração municipal de um grupo de intelectuais liderados por Mário de Andrade”, escreve a professora Maria Ruth Amaral de Sampaio num dos textos da mostra.

A realização da mostra tem a colaboração da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Crespi Prado. A cenografia é da Apiacás Arquitetos, com projeto de Giancarlo Latorraca. A pesquisa esteve a cargo de Wilton Guerra, historiador do MCB.

Durante a abertura da exposição, o grupo Trovadores Urbanos faz uma apresentação musical, com repertório dos anos 1930, período em que Fábio Prado estava à frente da Prefeitura.

Abertura da mostra: 15/8/06, às 19 às 22h

Visitação: de 16 de agosto a 10 de dezembro, terça a domingo, das 10 às 18h